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terça-feira, 7 de outubro de 2008

Eleições Municipais 2008

Pois é!

Ontem foi mais um dia da "Festa da Democracia".
A minha deu-se em uma escola municipal recém inaugurada, com paredes limpas, letras coloridas em todas as portas, e um bebedouro público com canecas ao invés de copos descartáveis.
Obra de Sidônio - PHS(Partido Humanista da Solidariedade), atual prefeito de Tefé, reeleito ontem para o próximo mandato.
Pela noite, da laje da casa de Léo e Marilene, vi mais uma das várias motorreadas que fizeram parte do cenário eleitoral tefense.
As pessoas saíram às ruas, gritavam, soltaram rojões! Era um dia de festa.
O cara virou lenda ao ter conseguido sanar dívidas gingantescas deixadas pelos prefeitos anteriores em precatórias que venceram no seu primeiro ano de mandato.
Quem sou eu pra julgar, vivo em Tefé há apenas um mês. Minha grande queixa é a coleta de lixo que, se existe, não passa na minha rua. Mas nunca, nunquinha vi um caminhão de lixo pelas ruas da cidade.

Sidônio disputava a prefeitura com Papi (PMDB), autor da música de campanha em estilo Calipso que não sai da minha cabeça
"15 é saber administrar,
15 é fazer o que o povo quer,
15 é sonhar e realizar,
um sonho meu e seu"

e Hélio (rouba à ) Bessa - PRTB, ex-prefeito de 1997 a 2000, reeleito na época (até 2004), e chamado no discurso de Papi como o "maior ladrão que a Amazônia já pariu". Na campanha, ele pedia ao povo, uma segunda chance.
No meu incosciente, torcia pela reeleição do Sidônio, e comemorei o resultado de ontem.

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Tenho alma meio anarquista, mas também adoro cargos representativos. Fui representante discente durante toda minha graduação lá pelo IB, e militei na formação de opinião dos bonecos para ocuparem os espaços que eram nossos, e estavam vazios há anos!
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Em São José dos Campos, terra onde meu título de eleitor reside, e onde deveria ter votado, teremos mais 4 anos de PSDB!
Dois mandatos de Emanuel Fernandes e 1+1 do Eduardo Cury = 16 anos de governo PSDB na cidade!
Condomínios, empresas, uma classe média, média alta, solidificando-se, aumentando os padrões de consumo, e votando em quem cuida de jardim!

Não sei se queria PT, mas eu quase me sinto baixo a lei de um senhor feudal, cuidado por seus vassalos habitantes dos condomínios fechados e prédios de luxo, alimentados pela massa operária que assimila os valores da vassalagem sem nenhum senso crítico.

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A boa notícia vem da cidade maravilhosa!
Surpreedendo as pesquisas eleitorias, Fernando Gabeira-PV vai para o segundo turno com Eduardo Paes.
Pra quem não conhece, Gabeira é um dos caras do Brasil! Ser humano como todos, tem seus defeitos! Mas talvez seja um dos hippies idealistas que tenha ido mais longe na carreira política.
Para quem não sabe de quem eu estou falando, Gabeira é o cara que idealizou o plano de sequestrar o embaixador americano na época da ditadura. Vê lá o filminho "O que é isso companheiro?"
Atua hoje na defesa do movimento GLBT, é defensor da legalização da maconha, da profissionalização da prostituição,
Deixo aqui meus votos de boa sorte ao Senhor Fernando Gabeira - 43, e estou em campanha para que a antiga capital do Estado da Guanabara seja "governada" por esse cara.
Essa é a página oficial da campanha
gabeira43.com.br/flash.html#

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Sobre Campinas, Dr. Hélio se reelege.
O genro escondido do prefeito, e ex-sub-prefeito de Barão Geraldo, Thiago Ferrari, é o quarto vereador mais votado no município.
Ao menos a comunidade de Barão Geraldo no Orkut vai voltar a bombar!

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Bicicletas, Grupos e Iniciativas!

Primeiro que faz tempo que eu havia ouvido falar da Ashoka, e nao sei porque ainda nao tinha entrado na página e conhecido de perto o trabalho deles.
"A Ashoka é uma organização mundial, sem fins lucrativos, pioneira no trabalho e apoio aos empreendedores sociais - pessoas com idéias criativas e inovadoras capazes de provocar transformações com amplo impacto social. Criada há 25 anos pelo norte americano Bill Drayton a Ashoka teve seu primeiro foco de atuação na Índia. Presente em 60 países e no Brasil desde 1986, a Ashoka é pioneira na criação do conceito e na caracterização do empreendedorismo social como campo de trabalho. Após identificar e selecionar o empreendedor social, a Ashoka oferece uma bolsa mensal por três anos para que ele possa se dedicar exclusivamente ao seu projeto e contribui para a sua profissionalização provendo serviços como seminários e programas de capacitação."

Quem sabe um dia eu consigo essa bolsa. Informaçoes do processo seletivo estao aqui.

Simultaneamente, minha idéia de integrar os grupos de bicicleta do Brasil e da América do Sul, começada ao poucos com uma página no multiply.
Essa semana chegou ao cicloviavel um e-mail do grupo chileno Ciudad Viva para que enviássemos nossas informaçoes para um cadastro dos grupos trabalhando com bicicleta na América do Sul.
Quatro pessoas estao coordenando o SUSTRAN LAC, Sustainable Transport Action Network, para América Latina e Caribe. O projeto visa ampliar o transporte a traçao humana na América do Sul e Caribe, e neste momento está contactando todos os grupos por e-mail, para que preencham uma ficha de cadastro.

Nestas buscas internéticas, encontro também uma página que se chama Escola de Bicicleta. É um site em formato de livro. Informaçoes extremamente relevantes.

Na Espanha, mais presisamente Catalúnia, encontrei o grupo BiciFamiliar! A página pode ser lida em espanhol ou catalao. A iniciativa vem de pessoas que eram ciclistas e usavam bicicletas no dia a dia, e queriam alternativas para seguir com seu cotidiano em família!
Vendem produtos geniais, entre eles o FlexSun, um tipo de toldo que protege do sol (e possivelmente da chuva) além de ser extremamente colorido e contribuir para que a pessoa possa ser vista.

FlexSun (foto da página)

Essa mesma empresa-organizaçao, comercializa um sistema para transporte de crianças chamado followme.A idéia é que o pai-mae tenha o filho sempre próximo, mas ao mesmo tempo o pequeno nao tenha que pedalar todo o tempo. A criança pode pedalar, mas se estiver cansada, o progenitor pode carregá-lo de maneira confortável.

Ainda com as bikes, olhando as recomendaçoes de senhorita Lou, encontro o Hospitality Club de ciclistas: Warm Showers. Roger e Randy sao as pessoas que autorizam o ingresso. Acho importante dar nome a eles (daria caras se tivesse as fotos). Sao pessoas comuns com iniciativas pequenas, e que sao absolutamente fantásticas!

E no meio disso tudo há também os patins! (O Zé Lobo, do transporte ativo, é casado com Érika Cordeiro, patinadora e promotora dos patins como meio de transporte urbano). É um parenteses, por isso entre parenteses.

Cito aqui o ITDP (Institute for Transportation and Development Policy), fundado no ano em que eu nasci, 1985. Tem uma equipe trabalhando em todo o mundo. O que eu acho " fantástico" am algumas páginas que trabalham na América do Sul é o idioma: ingles. Na sei se sao projetos para os sul-americanos, ou se é mais uma dessas práticas neoneocolonialistas em que o homem desenvolvido e civilizado do primeiro mundo baixa as terras onde predomina a pobreza e a desigualdade e trazem a soluçao para o nosso problema. Os projetos do ITDP para a grande Sao Paulo e México podem ser lidos em ingles. Tá aí mais uma das coisas que eu acho que é pra gringo ver, nao pra latino participar.

E pra quem tiver tempo, leiam o americano John Forrester.

Eu ando com dificuldades em definir por onde começar. Em separar profissao de açao.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Brasis no cinema

La Plata, chuva, esperando a partida para algum lado.

Filmes alugados, copiados, trazidos, e nunca vistos.

1942, sertao nordestino, em algum lugar de Pernambuco, o alemao Johann, funcionario contratado da Bayer, vende aspirinas de povo em povo e conhece Ranulpho, sertanejo que quer ir pra capital.
Um pouco lento, mas excelente fotografia e roteiro.

Iracema, uma Transa Amazonica
Obra-prima do cinema brasileiro. Obrigatório para o debate Documentário-Ficçao.
Uma análise bem feita levaria tempo. Leia o texto da Revista Contracampo.
Obra fundamental para pensar a questao amazonica do século XXI.
A partir da ficcional relacao entre Iracema (Edna de Cássia) e Tiao Brasil Grande (Paulo César Pereio), o filme conta a história de um lugar, de uma gente, e do grande projeto da construcao da Transamazonica!
É genial!

Bye-Bye Brasil
Preso no meu HD há muito tempo, é um filme referência de uma época recente da nossa história, da gente, da cultura, e do desenvolvimento econômico. Com a participação imperdível de Fábio Júnior.

sábado, 14 de junho de 2008

TransitoAtivismo em La Plata (o Crónica de una bicimilitante)

Passou o inexplicável agora há pouco!

Em quase 4 meses na Argentina, o trânsito aqui a coisa que mais me enlouqueceu.
O número de acidentes de trânsito na Argentina cresce cerca de 4% ao ano. Do total de mortes no país, 35% é direta ou indiretamente pelo trânsito. Na grande mídia, a Argentina é colocada como o país da América do Sul com mais acidentes de trânsito, mas tem muita gente que diz que o aumento dessa estatística não é verdadeira, é só serve para aumentar o valor dos seguros dos automóveis. Esses são dados de leituras de muitas fontes, mas como são contraditórios, fico reproduzindo aqui informação que pode não ser verdadeira.

Por falar em automóveis, a coisa aqui é mais contraditória que no Brasil. Um monte de carro novo, tinta brilhando a saído de fábrica, cores sóbrias e neutras. Construção do modelo de consumo clássico de classe média, com um toque de não popular.E aí tem a frota dos antigos. Um dos grupos de carros antigos são os que circulam aqui e seriam peça de museu aí. Depois tem os velhos porque são velhos, e bem cuidados. E os que mais ocupam as calles são os velhos e mal conservados. Tá armado o caos.

Uma curiosidade: muitos dos carros daqui rodam a base de Diesel. Isso aumenta muito o ruído urbano (piorado com a má conservação dos carros). É comum ver um UNO passeando com o ruído de uma caminhonete ou de uma 4x4. A Gasolina (chamada de GASOIL) tá em falta. Tem posto que está fechado, e muitos vendem apenas uma cota de combustível, e para encher o tanque você tem que parar en vários postos (estación de servicio). Nas viagens que fiz, perdia-se uma hora na saída parando em diferentes postos de gasolina. Entretanto, se você for a um posto Petrobrás ou YPF o combustível é liberado. São as donas do negócio. A primeira já estamos bem familiarizados, e a segunda é uma petroquímica que tem uma (entre muitas) refinaria aqui em La Plata, e poluiu o campo da Facultade de Agronomia, reduzindo a área de pasto das vaquinhas que produzem leite para um comedor popular, em 70%. A proposta é converter todos os postos autônomos em postos das redes, e a a melhor maneira de fazê-lo é não abastecendo-os. Ou fale, ou se converte.

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La Plata não tem nenhuma estrutura para bicicletas, e a regulamentação do nacional de trânsito é muito superficial, não sanando diversas dúvidas de prioridade, certo e errado que felizmente o código brasileiro de trânsito resolve bem.
Para a legislação argentina, o link é esse: http://cicloviavel.multiply.com/journal/item/4

Até que...
Hoje às 13h30, estava passando por uma rua aqui, e me deparei com essa cena:
http://www.eldia.com.ar/edis/20080613/20080613154212.htm
Como ia fazer um trabalho em uma horta, tinha uma máquina para registrar o encontro com os meninos do bairro.
Acabei sendo a primeira fotógrafa da cena do incidente, e tirei umas fotos para postar no blog junto com um texto sobre o transito platense.

Já faz um tempo que estou indignada e assustada com o caos do transito daqui!
A cidade construída no final do séc. XIX, foi planejada, mas não para assistir a uma comunidade que se organiza hoje de outra maneira, com outra velocidade, diferente das carroças e carros daquela época.
Cada cruzamento é uma batida potencial. Só há semáforo nas grandes avenidas e em algumas diagonais mais frequentadas. Nas outras esquinas, vale a lei do mais forte. A lei é correr mais pra atravessar primeiro, frear na hora se for indispensável, e tratar ciclista e pedestre como alvos que atrapalham o caminho, ou seja, vão sinalizar que você ou corre ou pode perder um pedaço do corpo!
Armas potenciais nas mãos de gente despreparada (para não usar a palavra estúpida, essa sim na ponta da minha língua).
Uma carteira de motorista custa 72 pesos. Se não for de maior, e o papai autorizar, aos 16 anos na maior parte das províncias argentinas se pode emitir a carteira de motorista.
La Plata e alguns outros municípios possuem um sistema de avaliação regido municipalmente, em que existem provas semelhantes as do Brasil. Entretanto, o que a maioria faz é buscar um comprovante de residência em outro município com leis mais flexíveis. Aqui na região, acabam indo para Berisso e City Bell. Na capital, Buenos Aires, precisa fazer um curso teórico de uma semana como n Brasil.
Concordo que no Brasil é demasiado caro, mas a burocracia toda é válida sim. Eu juro que sinto falta do trânsito de Campinas.

Não se dá seta para virar. Sinalizar aqui é quase um luxo. O que sim, tem piscas-alertas quase todo o tempo parados no meio da rua, esperando alguém, algo, ou parado mesmo enquanto o motorista precisa ir resolver uma coisa rapidinho.

Triste e com o coração cheio de vontade de escrever um texto sobre o transito platense, em 2 semáforos com gente parada não em cima da faixa, mas já no meio da rua (onde circulam as bicicletas), saquei a minha arma (a câmara) e tirei uma foto. Sem ver motorista, placa, nada! Só a irregularidade que tantos habitantes platenses cometem e tratam como se fosse normal.

O senhor motorista do carro que fotografei, parou o carro (no meio da rua, obviamente), e veio até mim, me ameaçando, dizendo que não podia fazer isso. Falei com toda a calma do mundo que não podia identificá-lo, mostrei a foto, e nada. Apaguei a dita foto. Chega dizendo que é polícia, e que o que eu estou fazendo é ilegal (situação de estrangeira oprimida com medo de te fato ter feito uma cagada). Sujeito com cara de mal, um metro e meio de altura, cabeça careca lustrada, bigodão negro. Me perguntava de onde eu era, insistentemente, e o que estava fazendo na Argentina. Muitos rodeios para não dar a informação, e a violência verbal piorando. Pára um homem, e diz para eu não me preocupar. Fica ali parado, com cara de pastel, entendo a situação, e com uma ponta de sadismo, tanto em relação a mim quanto ao cara. O "policial" diz que vai chamar a comisaria. O pastel empresta o celular para ele (ao invés de dizer a ele que tá tudo bem e deixar-me ir). Chama a polícia, diz que tem uma emergência na 12 e 44. EMERGÊNCIA. Tudo bem. Volta com as perguntas, e prefiro dizer que sou brasileira, e estou de intercâmbio na agronomia. (não queria contradições com o possível B.O.) Me diz agora que eu tinha que apagar também a foto que tirei do carro parado sobre a calçada de uma esquina, com o pisca-alerta ligado. Apaguei. Vou embora então, não? Outra vez me segura pela bicicleta, não me deixa ir (cheguei a pedalar em falso, me suspendeu no ar). E o pastel, outra vez, ao invés de fazer campanha para resolver a situação na paz, queria ver o circo pegar fogo. Com esse tipo eu não poderia contar.
Mulher, estrangeira, ameaçada por um "policial".
-Mas por que você tá tirando foto? Você não estuda periodismo (jornalismo) estuda agronomia. (Nessa hora você que a sociedade humana realmente está mal das pernas).
-Eu participo de um grupo de ciclistas no Brasil, e queria compartilhar um pouco como é a situação aqui com eles.
- Você não é autoridade, não pode me dar uma multa? Depois você vai querer me dar uma multa por isso.
-
Eu já não tem mais sua foto, nem a deste carro.
-Você tá com seus documentos ai?
-
Estou.
-Me mostra?
-Não. Então, seu carro tá parado no meio da rua.
-Não importa se baterem, o carro é meu.
-É disso que eu to falando, não que vá estragar o carro, mas põe a vida das pessoas em risco.
-Antes de me acusar, você tem que pedir pra que o governo pinte essa faixa melhor, vê como tá.
-Eu sei disso, por isso deste o começo eu disse que não tire uma foto do seu carro para te acusar, e sim para retratar uma situação.
-Eu dirijo assim mesmo, todo mundo dirige assim aqui. Se você quer tirar foto, vai tirar foto do Brasil. Eu não posso ir pro Brasil e sair tirando foto de tudo que eu quero. Eu não posso tirar uma foto sua lá.
-
Senhor, eu não tirei uma foto sua, e esta a que você se refere já está apagada. (como foi difícil sair a palavra borrar nessa conversa)

O cara de pastel segue passivo à situação. Acho que ele esperava a imprensa para dar uma entrevista, ou queria ver algum dos dois se fuder, outra vez, por puro sadismo. Uma última tentativa de diálogo para que me deixasse ir antes de eu talvez ser levada por camburão a delegacia. O trato das pessoas nas delegacias aqui traz resquícios do passado de ditadura. Não existe lei, não existe coerência, não existe ética. Se fazem minha identificação e me levam para a polícia, alguma merda pro meu lado ia ser criada. Justificativa, se não se acha se cria.
Já parei de me preocupar em tentar escapar. O pastel não me ajudava, e ampliar meus crimes para violência física contra a tal autoridade era algo que eu não queria (apesar de até agora eu não saber se o cara era ou não polícia de verdade). Tentei diálogo, estendi a mão (e me lembrei de que aqui ele não usam as mãos para se cumprimentar. Na verdade não se tocam para quase nada, mas todos, conhecidos ou desconhecidos, se cumprimentam com beijo no rosto). Retiro a mão, volto a pedir desculpas, e a dizer que não sou uma ameaça. Pergunto quanto tempo tarda pra chegar a comisaria, e não sabe me dizer. Tento usar a argumentação de que tenho algo muito importante por fazer e preciso mesmo ir. Um olhar um pouco mais solidário. Aparentemente percebeu que até aquele momento não havia dito nenhuma mentira, e se solidarizou.
Minha última humilhação por não ter feito nada, foi apagar todas as fotos que estavam na câmera. As do acidente do link, de alguns amigos, de alguns lugares. Por sorte apenas o material dessa semana. Indiretamente, o cara violou um pedaço de mim.

Vale ressaltar que todo este diálogo se deu em espanhol argentino, e sob pressão, é muito mais difícil expressar-se em outro idioma, entender algumas palavras-expressões, e a chance de se piorar a situação é sempre maior que em uma discussão de paridade idiomática.

Saí pedalando sem olhar pra trás. Se no meio da rua, com pessoas ao meu redor, me senti desnuda nesta situação, não consigo imaginar como era ser um jovem fora da normalidade na época da ditadura, de fato sem roupa, sem comida, sem dormida, sendo acusado de crimes que não cometeu.

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Acho que no fundo, eu só queria estar no Brasil pra andar de bike pelada em São Paulo amanhã!

(o fato de este post não ter foto se justifica pela história já contada)

terça-feira, 29 de abril de 2008

A não marcha de Gualeguaychú

3h30 da manhã, saio de La Casa del Pueblo, mais um dos prédios "tomados pelo movimento" e transformados em espaço cultural. A banda Carinhosos da Garrafa tocava samba e pagode, mas o ônibus para Gualeguaychú, província de Entre Ríos, Argentina, saía as 4 a.m. da Faculdade de Agronomia.
Éramos 19 estudantes e o motorista, com comida, mate e água para um dia, prontos a acompanhar a Asamblea Ciudadana Ambiental de Gualeguaychú na IV Marcha Contra Las Papeleras. Papeleras = indústrias de celulose (neste caso, refere-se a um empreendimento de alto porte da escandinava BOTNIA). Se fosse em fevereiro o motivo poderia ser o famoso carnaval de Gualeguaychú.

Qual o conflito?
A instalação de indútrias poluidoras produtoras de matéria-prima, gera $, gera "trabalho", melhora os índices! Afinal, somos países em via de desenvolvimento, e barrar a entrada de uma empresa de tamanho porte, e barrar o desenvolvimento, e não é isso que nós, latino-americanos queremos. Queremos nos DESENVOLVER! (submissão cultural em diferentes aspectos - há poucos dias me referi a mim e a um argentino com quem conversava como latino-americanos; ele parou por algum tempo, nunca tinha se catalogado como tal. Antes de latino-americanos, são descendentes de italianos ou espanhóis).

Preocupados com o crescimento dos países do Sul, a indústria finlandesa cede a nossa gente a chance de ter perfumados bosques de eucalipto, de seguir em contato com o Dióxido de Cloro (coisa que europeu não pode mais, pois lá é substância proibida desde 2007), e de fazer um bom uso de toda a água que se desperdiça no Rio Uruguay (afinal, águas passadas não voltam mais), gastando 60 milhões de litros diários que saírá mais quentinha e cheia de compostos orgânicos e inorgânicos - um estímulo a "seleção natural".

Na grande mídia brasileira, o conflito é visto como uma briga político-econômica entre Argentina e Uruguai. A tentativa de nacionalizar o conflito é usada para enfraquecer a luta popular que é feita dos dois lados da fronteira. A empresa não tem licença social! A comunidade votou contra a implantação da indústria.

Mas infelizmente eu não conheci a situação in loco.

A queima dos pastizales voltou, e o humo retomou o domínio das estradas. (na mesma época, a regiao ao sul to Rio de La Plata por dias foi tomada pela fumaça da queima das pastagens de Entre Rios). Visibilidade zero, perigo, e busca por um posto de gasolina(estación de servicio) para parar e esperar. Ficamos parados no posto das 7h30 às 11h30. Nós e muitas outras famílias. Seguir viagem era impossível. Com o sol, a fumaça subiu, e seguimos viagem. Mas a ponte já estava cortada. A Asamblea corta as pontes da fronteira com o Uruguai, mas ao longo deste trajeto a polícia já começa a intervir, e pára-se toda a estrada na saída de cada município. São quilômetros de rodovia interditada.
Dali não se podia passar. Ao menos não ontem.
E assim voltamos, cansados e anestesiados por tudo!

Aqui o negócio é marchar e cortar rutas.
A metologia é a mesma, nos diferentes grupos, nos diferentes conflitos.

MAs leiam esta página:
www.noalaspapeleras.com.ar/

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Argentina - Movimentos "Populares" e Estudantil



Hoje participei da minha segunda marcha. A primeira foi na sexta-feira.
Aqui se faz marcha para quase tudo. La Plata, por ser uma cidade universitária de fato (são milhares de alunos cursando, não há um campus centralizado, e a cidade pelas praças e outras estruturas urbanas propicia o encontro da gente) tem um movimento estudantil muito forte. Há 3 grandes grupos - UNITE, Movimiento SUR, e COPA - e de alguma maneira os Centro de Estudantes (Centros Acadêmicos aí no Brasil) são ocupados por estes diferentes grupos. Eles dizem-se apartidários. Eu definitivamente, com minha vivência de mês e meio e pouca leitura posso avaliar a veracidade desta informação.
Mas o que quero comentar é como aqui as marchas estão constituídas como maneira de atuação política. Se no Brasil tudo acaba em pizza, aqui tudo acaba em marcha. Segundo a Lívia, é falta de Carnaval. E eu em partes concordo. Não podia acreditar no dia 23 de março, quando houve uma MARCHA pelos 30 mil desaparecidos da ditadura, na pseudomulata dançando pseudosamba ao som de uma bateria. E ao redor milhares de estudantes segurando faixas, "representando"os grupos estudantis, os estudantes que apoiavam a manifestação e exigiam do Governo (a palavra Gobierno aqui é muito mais usada que a palavra Estado) respostas às atrocidades cometidas na ditadura.
EU começo a ler está semana "Breve História de la Argentina - José Luis Romero" para tentar ampliar minha compreensão sobre a formação deste país que me acolhe por agora.
A marcha de sexta-feira era de Julio Lopez. Ele foi um dos muitos presos e torturados da época da ditadura que sobreviveu. Muitos anos depois, no início dos anos 2000, decidiu contar sobre o que viu (e quem viu) nos centros de concentração. Abriu-se então um inquérito para apurar as ações do senhor Miguel Etchecolatz, milico da época. Com evidências em mão, começou o julgamento, até que no dia 18 de Setembro de 2006, seria o último julgamento, onde o coronel Miguel Etchecolatz foi declarado culpado e preso por envolvimento na tortura e práticas políticas da ditadura.
Todos esperavam a testemunha, Lopez, neste dia. Lopez "não apareceu". Desapareceu. Desapareceu como desapareceram tantos jovens daquela época, que segundo o discurso de muitos militares, não estão mortos, estão vivendo em Cuba, e as famílias argentinas não têm notícias por conta do governo do Fidel, que fez com que os jovens desaparecidos da ditadura não tivessem vontade de voltar de lá.
Essas dores estão arraigadas nos argentinos. Muitos dos estudantes de hoje tiveram pais torturados na ditadura. O pai da Sole, que mora comigo, ficou preso por 5 anos. A mãe dela, que tem um bócio enorme, recusa-se a fazer uma cirurgia. Não vai a médicos até hoje, carregando a lembrança de muitos que ajudavam o governo militar a sacar a verdade dos jovens rebeldes.
No 18 de cada mês os estudantes, de todos os 3 grupos políticos, saem às ruas em Buenos Aires cobrando do Estado (Gobierno) uma resposta ao dado sumiço. Querem que investiguem, querem uma posição. É de fato assustador que ainda sumam com gente que luta por aqui (apesar de no Brasil isso não ser nada diferente - lembrando o caso do Toninho do PT, prefeito de Campinas morto em 2001).
Mas a marcha não deixa de ser, de alguma maneira, "coisa de adolescente". É onde as pessoas se encontram, conversam, há bateria, cantam, caminham pelas ruas em que geral não se pode caminhar, fechando o trânsito, trangredindo o dia a dia, levando faixas. A fantasia é o vermelho e negro. (tirando a cor do Flamengo, bem que lembra o Carnaval, não?). Talvez a Lívia esteja certa, a marcha é fruto da falta de Carnaval.
Tem um movimento de grafite muito forte também! Por onde passa a marcha, os grafiteiros deixam mensagens para que os caminham pela rua."Donde está Lopez?", "Sin Lopes no hay nunca más", "Aparición con vida yá de Julio Lopez"(esta última, em específico, me parece uma pauta de reivindicação bastante furada).
Se no Brasil, a pressão da informação da identidade nacional está no velho chavão de que "Brasileiro sempre se esquece", o que manda aqui é "O argentino nunca esquece".
Pode ser bom esquecer. Para seguir, às vezes é importante deixar as coisas para trás.
Onde está o equilíbrio entre este sempre e nunca.